Tecnologia foi desenvolvida em parceria com a Cognition para integrar a rotina da engenharia de software do banco (Por Bella Winckler Matrone) - imagem reprodução -
Constituído de uma veia tecnológica forte, o Itaú começou a utilizar a inteligência artificial (IA) para auxiliar no desenvolvimento de seus softwares quatro meses após o anúncio do ChatGPT, em 2023. Logo, além da ferramenta da OpenAI, o banco estava adotando plataformas como o Github Copilot para ampliar ainda mais o uso da tecnologia.
No entanto, conforme a IA avançava, a organização percebeu que era preciso dar um passo além. A ideia era ir em direção ao futuro em que humanos e agentes trabalham juntos de forma segura e planejada, entendendo todos os passos de governança necessários para fazer essa transição.
“Percebemos que a programação seria transformada de muitas maneiras, e a engenharia, assim como a forma como operamos, também teria um grande impacto. E queríamos fazer parte desta mudança”, conta Carlos Eduardo Mazzei, diretor de Tecnologia do Itaú.
Foi então que, no final de 2024, a companhia fechou sua parceria com a Cognition, empresa de agentes de codificação com IA e criadora do Devin, agente de IA que apoia engenheiros de software com IA. Segundo Mazzei, o acordo se deu tanto pela capacidade tecnológica da Cognition como pela sinergia entre as culturas.
“Escolhemos o Devin porque ele podia realizar tarefas relativamente complexas, para além de um assistente de programação. Mas, mais importante, percebemos que a Cognition tinha uma equipe técnica dedicada e capaz de evoluir rapidamente”, afirma.
Planejamento antes da ação
Apesar da vontade de seguir para a próxima fase, Mazzei conta que o processo de implementação foi feito com muita cautela, começando por compreender como e onde o Devin seria utilizado. A etapa exigia montar um piloto de experimentação, no qual as equipes não só testariam o agente, como o treinariam com todas os protocolos existentes da área.
Neste ponto, Mazzei afirma que como a companhia já utilizava a IA para ajudar em seus processos de codificação, os primeiros treinamentos ganharam celeridade rapidamente e, em pouco tempo, o Devin estava auxiliando a melhorar estes processos. Nesse sentido, o executivo ressalta a importância de criar uma base de governança antes de aplicar a IA.
“Sabíamos que ter funções e diretrizes bem definidas era extremamente importante. Diretrizes rígidas sobre como trabalhar nos aplicativos, como aplicar as melhores práticas para desenvolver uma boa solução, como ter os padrões de arquitetura e tudo o mais, foram fundamentais para garantir a segurança desse processo”, disse.
Com a governança encaminhada, o objetivo então, passou a ser garantir que os sistemas fossem adaptados, compreender como o agente funcionaria dentro do banco e como os times se adequariam à nova realidade.
Enquanto isso, para tornar a integração possível, a Cognition enfrentava outro desafio: a escala das operações do banco. Em entrevista ao IT Forum, Russell Kaplan, presidente da Cognition, conta que foi o número de repositórios de código do banco que exigiu uma dedicação maior de sua equipe.
“O Itaú tem mais de 300 mil repositórios de código, então nós precisávamos entender como lidar com aquela escala massiva e a complexidade da infraestrutura existente. Mas como o banco já havia dado pensado antes em como será o futuro da engenharia de software, conseguimos focar no que era prioridade para o processo”, disse o presidente.
O piloto mostrou que os times do Itaú que utilizavam a ferramenta conseguiam ampliar o volume de entregas em 30%, ao mesmo tempo em que aprimoravam a qualidade de código e a experiência de seus desenvolvedores. Após o sucesso dos testes, o Devin passou então, a ser incorporado no dia a dia das equipes gradualmente.
No entanto, de acordo com Mazzei, após os primeiros resultados, a procura pelo agente foi tão grande dentro do banco, que na metade de 2025, seis meses após o começo da implementação, o contrato com a Cognition precisasse ser ampliado. “Conseguimos garantir que todas as soluções atendessem aos nossos padrões, elevando ainda mais o nível e acredito que isso foi reconhecido por todas as áreas”, afirma.
Resultados e o futuro do Itaú
Atualmente, o Devin está sendo implementado em todos os times de tecnologia do banco, sendo utilizado por cerca de 75% das equipes de forma autônoma ao lado de engenheiros do Itaú, escrevendo, testando, corrigindo, enviando e documentando códigos prontos para produção. Além disso, também tem sido implementado como uma camada de conhecimento institucional, que mantém a documentação de códigos do banco constantemente atualizada.
O diretor de Tecnologia afirma que o plano é garantir que a IA atue em toda sua operação, mas o avanço tem sido cauteloso devido aos códigos legados da instituição. Com um plano de migrar 100% de sua infraestrutura para a nuvem até 2028, hoje o Itaú possui 70% de seus serviços hospedados em nuvem pública, mas os outros 30% restantes tornam a integração do Devin mais lenta.
“Nossa expectativa é que vamos superar essa lacuna em breve. E nossa visão é que cada equipe aqui no banco terá engenheiros humanos e engenheiros de IA trabalhando juntos. Mas nosso ecossistema é realmente complexo e temos que garantir que as vulnerabilidades sejam tratadas antes de qualquer passo”, reforça Mazzei.
Ainda assim, o executivo afirma que desde que começou a rodar, o Devin já mudou muito, aprimorando suas respostas a cada dia. Kaplan explica que o resultado é parte do DNA do agente.
“O Devin foi projetado para crescer com a empresa, da mesma forma que uma pessoa começa em um novo emprego. Então, ele aprendeu muito sobre a base de código da TI, suas melhores práticas da TI, bibliotecas e estruturas internas. Agora estamos no ponto em que a adoção cresceu tanto que problemas que nunca teriam sido resolvidos já são identificados e solucionados”
Desde que passou a ser utilizado no Itaú, o agente de IA tornou a migração de serviços seis vezes mais rápidas. A solução reforça a segurança no desenvolvimento, solucionando 70% dos alertas identificados pelas ferramentas de análise estática de códigos, e duplica a cobertura de testes, de aproximadamente 50% para mais de 90%.
O uso da ferramenta faz parte de uma estratégia mais ampla de inteligência artificial, com foco em ampliar as capacidades do Itaú Unibanco. O banco conta atualmente com mais de 750 iniciativas de IA generativa em operação, abrangendo diversas áreas de negócio. No último ano, o número de iniciativas em produção cresceu mais de 141%.
Os próximos passos incluem chegar a 100% de integração da tecnologia e mergulhar mais profundamente em novas possíveis funcionalidades do Devin, expandindo a ferramenta para novas áreas de negócio. Para Kaplan, o sucesso desta e das próximas etapas vêm de uma forte cultura de inovação presente na jornada.
“Não se trata apenas das ferramentas, mas da organização, das equipes e de como elas colaboram entre si. E vimos que o Cadu construiu essa cultura de inovação e experimentação, onde os engenheiros são incentivados a aprender coisas novas e testar novas ferramentas. E acho que esse é um dos aspectos mais importantes para a implementação bem-sucedida”, finaliza. (Fonte: IT Forum)