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Caso MASTER: como funcionava a engrenagem que criou a maior fraude financeira já praticada no País

  • 30/03
  • Geral
  • Assessoria de imprensa

Segundo investigações, que tendem a continuar por longo tempo e identificar idealizadores da estrutura, modelo foi criado para ludibriar órgãos de controle e fiscalização; Vorcaro e Reag não se pronunciaram (Por Cristiane Barbieri) - foto reprodução - 

O avanço das investigações sobre o caso Master começa a tornar mais clara a intrincada teia criada para dar suporte à maior fraude financeira já praticada no País, segundo as autoridades. Ao mesmo tempo, indica que as apurações continuarão por bastante tempo: a cadeia de envolvidos tende a aumentar, inclusive com a revelação dos artífices dessas estruturas, que devem ir além de Daniel Vorcaro, controlador do banco.

Procurada, a defesa de Vorcaro não se manifestou sobre o que foi revelado nas investigações.

As descobertas revelam também como foi possível driblar regras e estruturas criadas justamente para evitar casos como esse. Entre elas estão a supervisão das instituições financeiras pelo Banco Central (BC), a regulação do mercado de capitais pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o monitoramento de operações atípicas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), além das auditorias independentes e de pilares básicos da gestão de fundos, como o tripé formado por administrador, gestor e custodiante.

Numa metáfora bastante simplificada para efeito de entendimento, o Master poderia ser comparado a um parque de diversões. Para entrar, o investidor troca seus reais por ingressos de papel (como os CDBs e cotas de fundos). Na propaganda do parque, aparecem muitas atrações e com garantia da diversão, pagas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Por dentro, porém, as montanhas-russas são de papelão — mas o aval de “peritos” continua a atrair muitos investidores. Para dar a impressão de que o parque está cheio, o Master monta uma espécie de jogo de espelhos: compra empresas de fachada ou ativos de baixo valor, que passam por uma cadeia de fundos e acabam superavaliados. Parte desses recursos volta ao próprio banco. No fim, o dinheiro não sai do lugar — apenas circula internamente, criando um movimento artificial que aparece nos balanços como sinal de sucesso.

Embaixo do parque, porém, há um ralo que escoa o “dinheiro bom”, que chegou na entrada, para fundos no exterior. São muitas justificativas usadas para esse envio, como pagamento de advogados e consultorias, remessa de lucros sobre operações financeiras bem-sucedidas e outras.

Até que o esquema ficou insustentável. De um lado, aumentava a pressão e o escrutínio do BC sobre o banco. De outro, a Operação Carbono Oculto arrombou as portas do “parque de diversões”, em agosto de 2025. A investigação em torno da presença do crime organizado na Faria Lima congelou fundos da gestora Reag, uma das que ajudava a dar suporte a esse mecanismo, segundo as autoridades. Procurada, a Reag também não se manifestou.

A dúvida, entre profissionais da Faria Lima, é se a PF mirou o Master ou se acertou o que não viu, ao investigar o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Atrações de fachada
Após captar recursos de investidores, o Banco Master não os direcionava para empréstimos, como fazem outras instituições. Segundo as investigações, sua principal atividade era comprar ativos baratos — ou sem valor — e fazê-los circular entre fundos e transações, criando uma valorização artificial.

Entre esses ativos, estavam precatórios e pré-precatórios, empresas de fachada e terrenos. Para ficar num exemplo, o Master era dono de cotas do fundo Graveyard Death and Care (negociada na B3 com o código CARE11).

Esse fundo abrigava ativos reais, como o Cemitério Parque da Colina, em Sabará (MG), que pertencia à família de Vorcaro. Também de jazigos no Cemitério do Morumby (SP), uma fatia do Grupo Cortel, o Cemitério Parque São Vicente (RS), entre outros.

De acordo com investigações da Polícia Federal enviadas ao Supremo Tribunal Federal (STF), o Parque da Colina foi superavaliado em R$ 181 milhões. O valor foi atestado por laudos. A CVM, porém, contestou esse valor e o revisou para baixo. O fundo também foi alvo de uma investigação da autoridade do mercado de capitais sobre manipulação de mercado.

Ao inflar ativos como esse, os fundos também pareciam mais valiosos — assim como o próprio banco —, o que ajudava a sustentar novas captações de recursos, com a venda de CDBs e letras financeiras.

Com valor de mercado de R$ 34,2 milhões, o CARE11 declarou ter patrimônio líquido de R$ 249 milhões. Este é o valor que o fundo diz ter em ativos (cemitérios e jazigos) após subtrair dívidas. O indicador de preço do ativo sobre o valor patrimonial é de 0,14, o que mostra que o fundo é negociado com um “desconto” de 86%. Na prática, o mercado acredita que os ativos do fundo valem apenas 14% do que está registrado no papel.

Além disso, o CARE11 tem retorno sobre o investimento (conhecido como dividend yield) de 0% há anos, o que significa que, apesar de declarar um patrimônio milionário, não gera lucro real em dinheiro para distribuir aos seus mais de 6,9 mil cotistas.

O carrossel infinito
Há muitos casos assim, em várias frentes descobertas pelas autoridades. Outra peça na engrenagem revelada pelo jornal Valor Econômico, a partir de investigações da PF, mostrou a existência de 36 empresas usadas no esquema de valorização artificial de ativos, que desviou R$ 11,5 bilhões. O caso mais emblemático desse grupo foi o fundo Brain Cash, gerido pela Reag Investimentos, que multiplicou seu patrimônio em nada menos do que 3.000.000% em 20 dias.

Nesse caso, o esquema começa com a construtora Brain Realty, que tinha capital social de R$ 2 milhões (anteriormente de apenas R$ 100) e tomou um empréstimo de R$ 495 milhões do Master. Poucos dias depois, fez um aporte de R$ 450 milhões no fundo Brain Cash, que tinha patrimônio de R$ 15 mil.

Após passar por outros fundos (em questões de minutos) e comprar ativos sem valor, como cártulas (títulos) do extinto Besc, posteriormente valorizadas artificialmente, o dinheiro voltava ao Master. Não como pagamento do empréstimo feito à Brain Realty, mas como aplicações em CDBs do banco.

Ao receber seu próprio recurso como um novo investimento, o Master conseguia dois efeitos: o empréstimo original continuava entre seus ativos e o dinheiro que voltava (como uma aplicação em CDBs) fazia crescer seu balanço. No papel, o banco parecia ter dobrado de tamanho, aumentando seu índice de Basileia, que o permite continuar captando. Na vida real, havia apenas ativos fraudados, segundo as investigações.

Por outro lado, o “passeio pelos fundos” do Brain Cash resultava na reavaliação de ativos − no caso, em 30 mil vezes. Esse “lucro” entrava no balanço como resultado de equivalência patrimonial, o que permitia ao banco mostrar aos acionistas e ao BC um lucro bilionário que, na verdade, era o mesmo dinheiro girando na roda gigante.

O maior fundo usado para dar base a essa estrutura era o Hans 95, também administrado pela Reag, que chegou a investir R$ 2,5 bilhões no Master. Usado em muitas operações desse tipo, ele recebeu, por exemplo, dívidas e precatórios do Grupo João Santos, comprada pelo Master por valores baixíssimos (com descontos que chegavam a 90%).

Dentro da estrutura na qual o Hans 95 operava, o ativo sofreu uma reavaliação técnica e passou a valer centenas de milhões de reais, sob o argumento de que a recuperação judicial da usina teria sucesso garantido. Entre muitos exemplos, as autoridades descobriram que o Hans 95 estava sendo usado para dar aparência de “fundo de investimento multimercado sério” a um amontoado de dívidas incobráveis. Era no Hans 95 que o dinheiro dos RPPS (as previdências de funcionários públicos de prefeituras) era aplicado.

O ralo sob as engrenagens
No ralo de escoamento para o exterior, a PF identificou que a valorização do Brain Cash foi usada especificamente para “lastrear” a saída de R$ 700 milhões para o exterior sob a rubrica de dividendos. Como o fundo “lucrou” muito, os sócios alegavam que tinham o direito de retirar esse lucro e enviá-lo para suas contas fora do País.

O Hans 95 foi identificado como uma das principais ferramentas para evasão de divisas e o envio de recursos ao exterior. Por ser classificado como um fundo que pode investir em ativos estrangeiros, o Hans 95 tinha permissão legal para enviar dinheiro para fora do Brasil. O esquema utilizava essa prerrogativa para transferir recursos para offshores em Cayman e Delaware sob a aparência de “alocação de capital”.

Parte do dinheiro que saía via Hans 95 retornava ao Brasil como Investimento Estrangeiro Direto (IED), segundo relatórios da Operação Compliance Zero. Isso servia para comprar novas empresas e dar ao Grupo Master uma imagem de sucesso internacional, quando, na verdade, era o mesmo dinheiro desviado dos investidores brasileiros e de prefeituras (RPPS).

Quando o Hans 95 e outros fundos foram bloqueados na Carbono Oculto, uma série de empresas ligadas ao grupo começaram a enfrentar dificuldades. Antes mesmo de o Master ser liquidado, outros investidores com conexão próxima ao grupo passaram a ter problemas de liquidez.

Ainda não há uma estimativa oficial de quanto foi desviado ao exterior, mas as investigações apontaram o envio de dinheiro a paraísos fiscais como Ilhas Cayman, Ilhas Virgens Britânicas, Panamá e Delaware (EUA), além de vários países da Europa.

Fragilidades na fiscalização
O esquema do Grupo Master foi desenhado para explorar as “zonas cinzentas” e as limitações de comunicação entre os diferentes órgãos de fiscalização, segundo especialistas. Cada autoridade era enganada com uma estratégia específica, seja com a valorização artificial do patrimônio, laudos falsos ou a multiplicação de operações, para passar incólume nas movimentações financeiras de alto valor.

“O Caso Master expôs uma série de fragilidades dos órgãos reguladores, sobretudo na comunicação entre eles”, diz Cleveland Prates, professor de Economia da FGV Law. “Se houver um aprendizado possível, deve ser o maior investimento no fortalecimento desses órgãos, o que tem um custo baixo, em relação às perdas que eles podem evitar.”

O primeiro alerta criminal do BC em relação ao Master só foi dado após a identificação de uma carteira de crédito falsa de R$ 12 bilhões feita pela instituição ao Banco de Brasília (BRB), quando foi anunciada sua venda ao banco público.

A CVM mapeou 200 processos administrativos contra o Master e a Reag desde 2017, quando começou a identificar os primeiros indícios de ficção contábil. Muitos deles ficaram restritos ao ambiente interno do órgão e alguns resultaram em multas irrisórias em relação ao tamanho do problema.

“A Lava Jato impactou o setor de infraestrutura como um todo e ainda é cedo para se falar do alcance da Compliance Zero no setor financeiro”, afirma Marcelo Alcides Gomes, especialista em investigação de fraudes e perícia contábil e sócio da consultoria DFEXA. “Mas se a investigação não for feita a sério, corremos o risco de, em determinado momento, casos como esse afetarem a economia como um todo.” (Fonte: Estadão)

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