Autoridade monetária diz que guerra aumentou ‘incerteza’ sobre os modelos econômicos e as projeções de inflação (Por Alvaro Gribel) - foto reprodução -
O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto, para 14,5% ao ano, como esperado, e indicou cautela à frente, sem sinalizar os seus próximos passos. O mais provável é que o ritmo de cortes se mantenha na próxima reunião, em meados de junho, a depender dos desdobramentos da guerra do Irã. Se o conflito escalar, o BC pode mudar o rumo e interromper a redução dos juros. Mas, se chegar ao fim, com o restabelecimento do fluxo de comércio de petróleo no Estreito de Ormuz, não fica descartada uma queda de 0,5 ponto.
À primeira vista, a queda nesta quarta-feira, 29, poderia ser considerada um contrassenso, já que o Banco Central informou que a sua projeção de inflação no “horizonte relevante” - um período de tempo 18 meses à frente que serve de parâmetro para se calibrar os juros - ficou em 3,5%, ou seja, distante do centro da meta de 3%.
Mas o próprio Banco Central explicou que os juros já estão altos por um tempo suficientemente prolongado, o que significa que ainda há efeitos sobre o nível de atividade econômica. Além disso, pontuou que a guerra tornou os preços dos principais ativos do mundo, notadamente o petróleo e o dólar, extremamente voláteis. Isso diminuiu a eficácia dos modelos e das próprias projeções.
O fato é que, desde o início da guerra tresloucada de Donald Trump, o barril do petróleo do tipo brent saltou da casa de US$ 72 e vem operando em torno dos US$ 100, com momento abaixo e acima desse patamar. Nesta quarta, fechou em US$ 110, um salto de mais de 50%, que tem várias implicações sobre a nossa economia -com pressão sobre os preços dos combustíveis e alimentos - e leva a uma piora das expectativas.
Desde o início da guerra, o mercado elevou as projeções para o IPCA deste ano, de 4,31% para 4,86%, acima do teto da meta, e subiu também os números para 2027, de 3,8% para 4%. A boa notícia é que, para 2028, o aumento foi ainda menor, de 0,1 ponto, e para 2029 não houve mudanças. Ou seja, ninguém espera um descontrole inflacionário por causa do conflito.
Outra ponto positivo é que o Brasil é um País exportador de petróleo, e isso ajudou a controlar o dólar, que tem ficado em torno de US$ 5. A credibilidade conquistada pelo BC, tanto na gestão Campos Neto quanto na gestão Gabriel Galípolo, também tem ajudado a manter o real valorizado.
São poucas, ou praticamente inexistentes, as vozes no mercado que questionam a independência operacional do Banco Central. Galípolo ignorou as pressões do governo sobre os juros e também sobre a estratégia do PT de culpar Campos Neto no caso Master. (Fonte: Estadão)